Edição de Julho – Setembro de 2026 | Volume 6, Número 3
O desafio é aproximar ciência e prática sem renunciar à autonomia intelectual, à reflexão aprofundada e à qualidade das contribuições
Em 2026, a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD) completa 50 anos. Esse marco veio acompanhado de uma importante provocação sobre o futuro da pesquisa em Administração no Brasil nas próximas cinco décadas. A questão central para esse debate é como aproximar o conhecimento gerado na academia dos problemas enfrentados pelas organizações e pela sociedade sem subordinar a agenda de pesquisa às urgências do mercado.
Na entrevista a seguir, Guilherme Fowler A. Monteiro analisa os desafios envolvidos nessa aproximação. Professor Associado do Insper e diretor da Unidade Acadêmica de Gestão e Economia, é doutor em Administração pela USP e desenvolve pesquisas em economia institucional e economia organizacional com aplicações em estratégia, governança e empreendedorismo. Fowler aborda a relação entre rigor e relevância, o diálogo com as organizações, o uso da inteligência artificial e a formação das próximas gerações de pesquisadores.
Professor, se olharmos para a relação entre academia, organizações e sociedade, o que precisaria ser diferente daqui para a frente?
Não acho que exista algo que precise ser estruturalmente diferente. O que não significa que as coisas estejam bem. O diálogo entre academia, organizações e sociedade tem se aprofundado, mas ainda precisa ser aprimorado.
Embora o objeto de estudo da Administração e áreas afins seja, fundamentalmente, as organizações, o “tempo da academia” é peculiar, mais lento. Se a pesquisa quer ter papel de relevância, ela precisa aprender a lidar com a tensão entre o tempo de publicação e o tempo dos executivos. Não é escolher um ou outro, mas saber transitar melhor. Obviamente, estou tratando aqui das publicações em periódicos de alto impacto, e não das revistas predatórias.
De modo correlato, a academia precisa conseguir dialogar melhor com a prática — e isso não significa perder rigor, pelo contrário. Devemos usar o rigor metodológico em prol da busca de respostas a perguntas que sejam relevantes para a prática, sem perder a autonomia e a curiosidade por fenômenos pouco explorados. É outra tensão que devemos buscar endereçar melhor.
Há muitos anos ouvimos que é preciso aproximar academia e mercado. Esse diagnóstico ainda é correto?
A aproximação é sempre bem-vinda. A questão do tempo é que se destaca. E aqui, um tema acaba ganhando relevância: o uso de ferramentas de IA pelos acadêmicos para acelerar o processo de publicação.
Não sou contra o uso da IA, eu mesmo a utilizo, mas vejo com ressalvas aqueles que delegam para um agente praticamente toda a confecção de um artigo, incluindo a escrita. Isso obviamente acelera a publicação e pode endereçar a questão da “tensão temporal”. Mas o trabalho intelectual deveria ser, em alguma medida, algo artesanal, analógico. Um pesquisador que se apoia apenas na IA e, com ela, se torna ultraprodutivo, pode estar criando um castelo de cartas. O que sobra da sua capacidade analítica quando o acesso à IA fica comprometido por qualquer razão? Se a resposta for “muito pouco”, talvez tenhamos um problema.
Existe uma tensão entre produzir conhecimento cientificamente rigoroso e pesquisar questões que sejam relevantes para gestores, organizações e formuladores de políticas públicas?
Essa tensão existe, e ela possui duas facetas. De um lado, os pesquisadores não podem se alienar das dores e questões que movimentam as organizações. Fazer isso é se furtar de dialogar com a prática. Por outro lado, as demandas das organizações não deveriam ser o único elemento norteador da pesquisa. É preciso que a academia também tenha espaço para pensar questões que estão fora do campo de atenção imediato das organizações. Não é porque as organizações não estejam atentas a um determinado tema que ele não pode impactá-las e, portanto, merece atenção focada dos pesquisadores.
O mercado é uma fonte de boas perguntas de pesquisa?
Sem o contato com o mercado, o pesquisador tende a se alienar da forma como as organizações de fato operam. E isso vale mesmo para aqueles que trabalham majoritariamente com dados secundários ou pesquisa teórica. Se o pesquisador não busca conectar o resultado da sua pesquisa – seja qual for a natureza – com a “realidade” (mercado), qual impacto se pode esperar da investigação em Administração?
No Insper, por exemplo, o Hub de Inovação e Empreendedorismo Paulo Cunha é um dos caminhos pelos quais essa relação se estabelece. Empresas trazem desafios concretos enfrentados por organizações ou pela sociedade em busca de soluções desenvolvidas em parcerias e projetos que envolvem estudantes, docentes e mentores. Essa aproximação permite compreender melhor o que acontece no mercado e identificar questões que podem dar origem a novas perguntas de pesquisa.
E no caminho inverso: o que a pesquisa acadêmica consegue oferecer às organizações?
Aqui, há duas diferenças importantes. Se pensarmos nas consultorias (internas ou externas), a pesquisa acadêmica traz um nível de rigor que apenas essa desconexão temporal lhe permite ter. Há certos temas que demandam análise profunda e reflexão, e isso demora mais tempo naturalmente. Logo, há quase como dois “mercados” em que consultorias e pesquisa acadêmica podem coexistir. Simultaneamente, mas não menos importante, a pesquisa acadêmica, pela sua natureza, tem o comprometimento com a pergunta de pesquisa. É ela que guia o esforço, independentemente de a organização gostar ou não da resposta.
Agora, se pensamos nos executivos, há uma outra questão em jogo. Os executivos são uma fonte muito relevante de informações e insights, porque estão mergulhados num dado contexto organizacional. Exatamente por isso, todavia, eles não conseguem apreender tudo. A nossa racionalidade é limitada. Um olhar “estrangeiro”, treinado para buscar “problemas interessantes”, com rigor e comprometimento com as respostas, é algo que pode agregar muito, desde que tanto o executivo quanto o pesquisador estejam abertos a escutar perspectivas diferentes.
Hoje temos novas possibilidades de pesquisa a partir de grandes bases de dados, métodos computacionais, experimentos de campo e inteligência artificial. Essas ferramentas podem mudar a relação entre pesquisadores e organizações?
Estes são temas de fronteira. É onde a ação está acontecendo e, por isso, é sempre mais difícil prever algo concretamente. Conforme tanto a academia quanto as organizações gravitem para essas ferramentas, é natural que a relação entre pesquisadores e organizações também se altere em alguma medida. Talvez os “custos de transação” na interface pesquisa/organizações se reduzam. Talvez as organizações passem a internalizar algumas funções que delegavam para os pesquisadores. Nesse caso, caberá aos acadêmicos pensarem o que, de fato, podem contribuir para as organizações.
Que papel os programas de mestrado e doutorado têm nisso? Estamos formando pesquisadores para conversar com diferentes públicos ou apenas com outros pesquisadores?
Os programas de mestrado e doutorado têm um papel muito importante. São a oportunidade de estudantes não só desenvolverem e aprimorarem conhecimentos técnicos, mas também terem a possibilidade de perseguirem uma pergunta de pesquisa em um ambiente estimulante, de troca intelectual. O trabalho de pesquisa é solitário na medida em que o pesquisador confronta uma dada pergunta. Todavia, estar no meio de pessoas que estejam trilhando o mesmo caminho sempre gera um tipo específico de conexão, de troca. Essa dimensão humana dos programas nunca deveria ser subestimada.
No Insper, valorizamos a integração entre experiência profissional, pesquisa e rigor analítico. Na pós-graduação stricto sensu, essa combinação assume ênfases distintas: o Mestrado Profissional em Administração, que completa 20 anos, mantém diálogo sobretudo com o mercado; o Mestrado em Políticas Públicas, com o setor público e o terceiro setor; e as trilhas de pesquisa do Doutorado Profissional em Administração contemplam questões tanto do mercado quanto do setor público. Em todos eles, buscamos formar pesquisadores capazes de dialogar com diferentes públicos, e não apenas com seus pares na academia.
O que espera que gerações futuras vejam sobre a transformação da pesquisa em Administração a ocorrer nestes próximos 50 anos?
Espero que possam olhar para trás e constatar que a pesquisa brasileira em Administração conseguiu se aproximar e se firmar junto à academia internacional. Que fomos capazes de ampliar nossa atuação de forma estruturada e consistente.